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Surpresa – Demissão de fotojornalistas causa queda de qualidade de fotos em jornais

Nos últimos anos temos presenciado uma tendência dentro das grandes empresas de mídia tradicional: os jornais. A queda da circulação das versões impressas e dificuldade de adaptar o negócio à realidade da internet trouxe o fantasma do corte de custos para os grandes veículos de comunicação. Um dos resultados dessa tendência são os cortes nas redações de jornais das equipes de fotojornalistas. Empresas como CNN , o NY Daily News , a Sports Illustrated e o Chicago Sun-Times demitiram a maior parte, ou todos, os seus fotojornalistas.

Qual era o plano dessas mídias? Apostar em agências de imagens, fotos enviadas pelos leitores ou simplesmente municiar seus jornalistas com celulares para eles mesmos fazerem suas imagens. Quem achou que isso ia dar certo só poderia estar louco. Sabemos que o fotojornalista é treinado para observar uma cena e realizar a imagem de maneira que ela se torna um instrumento de comunicação, mas também uma obra sentimental. É necessário ter validação externa para uma foto ter atingido o seu objetivo, é necessário causar algo no observador. E isso não é conseguido por qualquer um. É necessário anos de treino e preparação. E é justamente o que essas empresas jogaram pela janela.

Embora já saibamos de tudo isso, é interessante uma opinião mais embasada. Os professores Tara Mortensen e Peter Gade, da Universidade da Carolina do Sul e da Universidade de Oklahoma, publicaram um estudo com um título bem interessante: O fotojornalismo é importante? Conteúdo e apresentação de imagens noticiosas no Times Herald-Record de Middletown (NY) antes e depois das dispensas da equipe de fotojornalismo.

O referido jornal, Times Herald-Record, foi um dos jornais que demitiu toda sua equipe de fotojornalistas em 2013. Passados 5 anos do ocorrido, os dois professores analisaram a produção fotográfica do jornal. A metodologia foi simples. Eles criaram uma tabela onde as fotos seriam classificadas como: a) informativa; b) graficamente atraente; c) Emocionalmente atraente; e d) íntimo. Foram analisadas fotos de antes das demissões e de depois das demissões dos fotojornalistas. Só para ter uma fonte de comparação, antes das demissões dos fotojornalistas o jornal tinha uma média de 19% das fotos publicadas classificadas como "não profissionais". Depois das demissões essa média subiu para 33% e mesmo as fotos classificadas como "profissionais" eram provenientes de telefones celulares. O resultado dessa classificação é mostrada na tabela abaixo.

Segundo a pesquisa: “Após a demissão, o jornal publicou menos imagens e apresentou menos destaque. Imagens profissionais capturaram significativamente mais elementos de fotojornalismo do que não-profissionais, incluindo emoção, ação, conflito e apelo gráfico. Imagens profissionais foram apresentadas maiores e mais proeminentes. Os resultados deste estudo de caso fornecem evidências de que, apesar das claras diferenças no conteúdo da imagem, os fotojornalistas estão lutando para afirmar sua legitimidade profissional na era digital".

Só lembrando que em 2016, os fotojornalista apresentaram a diferença gritante entre as fotos de capa do Chicago Tribune (que ainda empregava seus fotojornalistas) e o Chicago Sun-Times (que demitiu os fotógrafos em 2013). As duas edições davam destaque para o final da World Series em 2016. Uma imagem vale mais do que mil palavras.

Sempre coloco no twitter alguns exemplos de como fotojornalistas conseguem transformar uma situação trivial em uma obra de arte ou simplesmente uma sacada interessante do ponto de vista da composição. Impossível competir com eles quando o quesito principal é o impacto da imagem e uma construção visual que consiga passar uma mensagem sem dizer uma única palavra. Achar que esses profissionais são substituíveis por pessoas destreinadas com iphones é simplesmente cair no ridículo e destruir a qualidade visual de seu meio de comunicação.

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